domingo, 17 de julho de 2016

Parábola do Presente

Ela era uma menina especial, e estava apaixonada.
Ouvia tudo que seu coração dizia. Em todos os momentos, de paz e de conflitos.
Uma vez, cansada de apenas ouvir, começou a guardar tudo que sentia numa caixa. Todas as lembranças, todos os momentos ao lado do seu amado, cada palavra, cada gesto de amor e carinho foram colocados ali.
Sua caixa tinha sentimentos puros. Quando a abria, uma luz enchia o ambiente. Sempre estava cheia, e nunca transbordava. Cada dia ao lado do seu amado era repleto de sonhos.
Então decidiu que sua caixa seria bonita por fora também.
Toda vontade de ser feliz foi colocada nas suas laterais. Tinha um colorido lindo, então se dedicou a fazer a tampa da caixa e nela colocou a esperança de que tudo melhora no próximo amanhecer.
Ela ficou completa e a menina carregava a caixa onde quer que fosse.
Até que um dia decidiu dá-la de presente. Pensava que o amor lhe dava coisas maravilhosas e compartilhando, seria retribuído e assim nunca acabaria. Ela queria, do fundo do seu coração, que seu amado soubesse o quanto se sentia feliz, e como era grande seu amor. Lembrava dos seus beijos, do calor do seu corpo, das palavras as vezes tão delicadas, e a ansiedade para entregar o presente aumentava.
Quando a abriu para seu amado, com o olhar sereno de quem estava dando o melhor que existia no mundo, foi surpreendida por sua reação.

_ Menina, isso não pode existir nesse mundo, eu não posso aceitar esse presente.

Então, percebendo a tristeza que escureceu seus olhos, lhe beijou e disse:

_ Guarde isso, é tão lindo como você, por dentro e por fora. Mas não sou merecedor.

Mas a menina não desistiu. Todos os dias carregava aquela caixa, e na tentativa frustrante de entrega-la, passava horas contemplando sua beleza, sua plenitude. O que a fez questionar o porquê de não ser aceita como presente. Ora, se era uma coisa boa, porque não era aceita? Nela estava tudo que tinha de melhor.
O tempo foi passando, e a menina percebeu que a cada tentativa, sua caixa ficava mais pesada. Assim, decidiu abri-la e ver o que estava errado. Para sua surpresa, a superfície estava repleta de tristezas.
Ainda assim, a carregava para todos os lados. Seu peso aumentava e o desconforto começou a incomodá-la. Usava as duas mãos para aguentar o peso, e logo não conseguia fazer mais nada. Seu amado dizia:

_ Não precisamos dela. Somos perfeitos com o que já temos.

Ao que respondia:

_ Mas aqui está uma parte de mim. A única parte que você não pode ver com seus olhos.

Em vão, sentia vontade de desistir, de jogar a caixa fora e toda vez que isso acontecia, olhava a tampa da caixa, a esperança estava ali, então tentava novamente.
Certo dia, sentou-se numa guia de calçada para descansar. Suas mãos estavam feridas. Sentiu o calor de lágrimas descendo-lhe ao rosto. Percebeu que ao seu lado sentou-se um senhor, que lhe disse:

_ Não consigo imaginar o que pode fazer uma menina tão linda chorar. Me diga, o que aconteceu?

Então a menina lhe abriu a caixa, e o senhor ao olha-la por dentro, perguntou:

_ É uma caixa cheia de tristeza e ressentimentos. Por que a carrega?

Enxugando as lágrimas, respondeu:

_ Ela não foi sempre assim. Era cheia de amor e carinho. Tinha momentos lindos por dentro, sonhos que me davam ânimo, sorrisos que faziam minha alma crescer. A luz dela era intensa, e nela estava tudo que eu tinha de melhor. Eu quis dá-la ao meu amado, mas ele não a aceitou. Tento entrega-la todos os dias, mas ele está ocupado ou apenas não quer recebe-la. Mas agora, não aguento mais carrega-la e não sei o que fazer com ela.

O senhor a observava com atenção e nos seus olhos havia ternura.

_ Minha querida, compreendo que tenha feito essa caixa para dá-la de presente, mas não vejo a sua caixa. Onde está?

A menina sem entender, respondeu:

_ Eu não tenho uma. Deveria ter?

Com um sorriso no rosto, o velho respondeu:

_ O único presente que você deve dar a você mesma estava aí, essa caixa não pode pertencer a outra pessoa, senão a você. Encha sua caixa novamente, coloque todos os seus sonhos, todo amor que houver dentro de você, todo o carinho, esperança e fé, e abra-a todos os dias, contemple, e às pessoas que estiverem na sua vida, deixe que vejam lá dentro, deixe que vejam a luz que sai dela e o calor que ela têm, mas nunca deixe que a levem de você! Entenda menina, que se você a possuir, ninguém poderá colocar nela o que você não permitir e carregando-a com a leveza dos seus sentimentos, poderá abri-la para todos e aqueles que sentirem a grandiosidade do amor, permanecerão ao seu lado, para abri-la com você.

A caixa em seu colo brilhou como a muito não fazia. A tampa parecia mais viva a cada momento, a paz voltou para o seu coração. 


Aldren Prado

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher!


Eu sou feita de versos sem rima
De palavras simples
De vento sul
De labaredas
Sou mutável
Sou mutante
Quase inconstante
Me perco no som das letras
Me encontro na junção das palavras
Sou mansa
Sou fera
Tenho desejos contidos
Sonhos impossíveis
Sou avessa
Sou matreira
Sou deleite
Sou semente
Sou orvalho
Reticências...
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Lou Witt