Se fosse o Amor a única fonte de alimento da sua alma você morreria de fome? Sei que a ideia de não ser uma pessoa amada assusta mais que a morte, e você diria algo como: Claro que não, eu amo e sou amada... ou coisa parecida.
O amor está nos filmes, nas músicas, na dança, nas poesias, em tudo ao nosso redor, talvez por isto não costumamos identificá-lo.
Falta-nos tempo e coragem para desenvolver um sentimento como o que vemos nos poetas. Ficamos emocionados com um filme, mas perdemo-nos quando alguém diz que nos ama. Não estamos preparados para esse milagre, embora tenhamos em nós a essência do amor.
Depois de procurar explicações na filosofia e na teologia, voltei-me aos pensadores, gurus, santos e pervertidos.
Minha incessante busca levou-me à obra prima sobre o assunto: “O Banquete”, de Platão. O amor não combina muito com a filosofia, mas Platão é um dos poucos pensadores que o usou como objeto de reflexão. Embora esse longo diálogo fale do amor grego, sobretudo de mitos e fábulas, resumo:
Eros, uma divindade, é definido pelos participantes do simpósio:
Fedro afirma que o Amor é um deus e quem ama torna-se divino como Eros. Assim, como ser divino, sacrifica-se pelo objeto amado. Fedro cita três exemplos de sacrifícios: Alceste, Orfeu e Aquiles. Não vou discorrer sobre para não alongar demais o texto.
Pausânias diz que existem dois Eros, um seria bom e o outro não muito bom. Um se apaixona pelo corpo e o outro pela alma. Desta forma, um amor é belo porque sobrevive ao tempo e à morte e o outro é feio porque morre quando o corpo envelhece, e o amado é deixado em desespero.
E ainda reflete sobre a ‘Servidão Voluntária’, declarando-a uma virtude, se o propósito de servir tornar alguém melhor em sabedoria ou qualquer outra espécie de virtude, e associa o que é belo à convergência do mesmo objetivo entre amado e amante.
Erixímaco afirma que Eros não é apenas um sentimento de uma pessoa por outra, mas uma força cósmica que move o universo. Existe Eros em tudo. Os contrários são harmonizados por Eros, Tudo é atravessado por uma força erótica existente na natureza.
Aristofanes discursou sobre a origem da forma humana como sendo a junção dos dois gêneros (homem e mulher - andrógenos), os seres teriam 4 braços, 4 pernas e duas cabeças e forma esférica e conta que eles se sentiram tão poderosos que quiseram subir no Olimpo e roubar o trono dos deuses.
Zeus para castigá-los, lançou seus raios partindo-os ao meio e dispersou-os pela terra, condenando-os a passar a vida buscando sua metade. Eros então é uma carência em busca de união e plenitude.
Agatão descreve as qualidades de Eros, como caçador, técnico, viajante, capaz de penetrar de maneira imperceptível as almas, tornando-as tão rapidamente apaixonadas.
Sócrates relata uma conversa que teve com uma mulher experiente nas coisas do amor: Diotina da Mantinéia. Ela lhe conta que Eros foi gerado durante uma festa, no dia do nascimento de Afrodite, e que por este motivo ama o que é belo, mas carrega traços indissolúveis da mãe, Pênia, a Deusa da pobreza. De forma que ele, Eros, se sente infeliz, sempre mendigando e carente.
Porém, astuto como o pai Póros, Eros sempre procura a beleza e se sente pleno quando a encontra. Diotina diz que Eros é um Daimo, um intermediador entre os deuses e os humanos.
Eros é o amor pela sabedoria e pela beleza e nos impulsiona pela busca da beleza, das virtudes, das leis, da sabedoria, a busca pelo belo e pelo bom, movidos pelo desejo, que consequentemente, gera o desejo pela imortalidade.
Esse diálogo se encerra com a declaração de amor de Alcebíades para Sócrates, dizendo que ele é feio por fora, mas bonito por dentro.
Perdoe-me a narrativa sáfia.
Essas são definições de amores que já tivemos, ou teremos. Sobretudo são sentimentos conhecidos, como se já tivéssemos, ao longo da existência, passado por todos eles, mas sem compreendê-los a tempo. Em algum momento da vida, o amor foi sacrifício, foi bom, em outras foi feio. Talvez servidão, às vezes força, carência, busca, paixão ou desejo. Muitas são as vezes em que julgamos sentir o amor, até que ele acabe e outro mais forte e diferente surja.
E muitas são as vezes em que perdemos a oportunidade de amar por medo de não ser correspondido.
O conceito de amor nas duas pessoas é diferente, isto gera decepção. Entenda o amor,compreenda o que sente. Compreenda o amor que recebe. Se alguém não demonstra sentir da mesma forma que você, não quer dizer que não sinta com tudo o que tem. O amor não tem medida, tão pouco razão.
Aceite que o outro é alguém independente de suas impressões e sentimentos, só assim o amor começa. Desprenda-se da sua imaginação do outro, mergulhe nos mistérios que ele traz, respeite a integridade absoluta do outro. O amor é a verdade - se consciente.
Por um minuto imagine a possibilidade de você poder ser você, e receber amor por isto. Imagine um olhar do outro sem ilusões, sem julgamento, e que você não precisa ser bom ou boa em nada; a sua existência basta! Isso seria tão leve, tão sublime... Alguém já ouviu você falar olhando nos seus olhos e esperou você terminar, sem interromper? Alguém já lhe dirigiu olhar com ternura?
A emoção não tem consciência, por isso não pode ser autogerida, ao contrário do pensamento. O amor então pode ser um sentimento, mas ele cria sua energia por meio do
comportamento. Apenas quando há consciência é possível torná-lo uma ação, e embora seja um fenômeno invisível e de força natural, ele precisa ser cultivado para manter-se pulsante.
Pouquíssimas pessoas conseguiram falar sobre o amor sem associá-lo ao desejo. Se você
leu com atenção, percebeu que Eros nada mais é do que o desejo. Pausânias fala de um Eros feio como quem se apega apenas ao corpo; Erixímaco admite a força erótica na natureza; Aristofanes fala sobre o desejo dos seres humanos pelo poder.
São Thomas de Aquino afirma que o bem vem antes do mal, o amor precede o desejo e este o deleite.
O amor desejando ardentemente possuir o outro é desejo, porém quando já o possui e goza dele, é alegria. O amor é a primeira das paixões do concupiscível, pois quando o ser amado é possuído, ele se torna fonte de prazer, porém quando ainda está distante o sentimento que existe é o desejo. Sente-se mais o amor quando é produzido pela carência.
O amor estende o desejo e o desejo estende o amor. Santo Agostinho esboça a união de ambos. Há apenas um amor, porque o desejo é um. Mas esse amor pode assumir duas formas incompatíveis de acordo com o objeto ao qual se dirige. Agostinho escreveu: "Quem ama quer formar um com quem ama”. Em consequência "o ser humano torna-se o que ele ama".
Freud (1912), discorre sobre o conflito de amar e desejar sexualmente a mesma pessoa, afirmando que a harmonia de uma relação amorosa se sustenta entre o equilíbrio das duas forças eróticas e afetivas. Poucas são as pessoas capazes de combinar convenientemente tais correntes, ou seja, amar sem que isso incorra na diminuição do desejo sexual.
Isso explica comportamentos comuns entre os homens, ao procurar mulheres apenas para satisfazer-lhes os desejos, tornando-se agressivos quando por elas começam a sentir amor, implicando em dor e sofrimento muitas vezes inexplicáveis e dos quais ambos, não conseguem se libertar.
Freud afirma que o comportamento humano é guiado por dois princípios que são o desejo sexual e o medo da morte.
Não importa qual é o desejo, o sexo é a motivação para qualquer atividade. Tanto um milionário quanto um sonhador, querem a mesma coisa que uma amante ardente: provar seu valor para conquistar, para possuir. Essa afirmação não se choca ao ponto de que a fama de perversão o precede. Contudo, muito antes, Schopenhauer (1819), de forma muito generosa, fundamenta o amor como um instinto encaminhado para a reprodução da espécie. É curiosa a exposição, complexa, porém embasada pelos comportamentos mais óbvios do homem. A natureza o engana por meio de uma ilusão qualquer, mostrando felicidade onde só existe o bem da espécie, e se converte em escravo desta, acreditando obedecer somente aos seus desejos. Esta ilusão não é mais do que o instinto, representado pelo sentido e os interesses da espécie ou, trocando em miúdos, todo e qualquer envolvimento sexual é causado pelo instinto de reprodução da espécie. É difícil acusar de egoísmo um comportamento natural, porém a intenção não é de justificar, mas de entender. O impulso incessante do masculino pela copulação é instinto, tanto que é comum alguns homens sentirem certa repulsa após o gozo, transformando em constrangedor um ato que minutos antes fantasiava o amor. Lacan explicita que o gozo fálico impede o homem gozar do corpo da mulher, pois do que ele goza é do gozo do órgão, ou seja, "o gozo enquanto sexual, é fálico, ele não se relaciona ao Outro como tal.
Talvez, após essas considerações, você pense que o amor nunca será real para o homem, tanto quanto é para a mulher. É desestimulante, quase injusto; narcísico e egoísta.
Lacan define o amor como o ato de dar o que não se tem a alguém que não o quer. Teria sentido se considerássemos que o amor é a fantasia, como citei acima. Amar é querer ser amado, afirmativa que denuncia a essência narcísica do amor, salientada por Freud.
Se o objeto de desejo é o amor, você nega saciá-lo privando o outro de sentir-se amado por medo de que o desejo acabe, dissipando as oportunidades de amar, você apenas manifesta um perverso egoísmo. O medo não lhe concede o direito de causar angústia no outro, mesmo quando o medo se confunde com proteção.
Freud faz a distinção entre narcisismo e egoísmo quando afirma que o narcisismo é o complemento libidinal do egoísmo; ele é a função do ego no sentido de autopreservação. O
egoísmo estaria, no caso, ligado ao instinto de sobrevivência, protegendo o indivíduo.
Não haveria sentido falar de amor e não citar o desejo, e consequentemente o egoísmo. Mas a intenção era justamente fazê-lo refletir sobre o amor romântico, por isso não citei Ágape, ou a carta de Paulo aos Coríntios, que considero o texto mais honesto sobre o amor Cristão.
Todos os dias, temos a oportunidade de manifestá-lo. O amor é ético, é digno. Você pode encontrá-lo nos dez mandamentos: em todos eles existe a presença do amor. Faça dele uma ação!
Todos esses pensadores citados, trabalharam duramente na análise crítica deste sentimento, e a conclusão de todos apresenta semelhança em alguns aspectos. Todo sentimento de amor carrega traços de desejo e egoísmo.
Não existiu no mundo mais bela definição de amor, do que a apresentada por Espinoza (1677): "O amor nada mais é do que a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior"
Tal definição apesar de simples revela o sentido mais abundante do amor. A existência do ser amado lhe causa felicidade. E complementa: "Vemos além disso que aquele que ama esforça-se necessariamente por ter presente e conservar a coisa que ama"
Aspecto negligenciado nos dias de hoje. Não existe sequer reciprocidade no amor.
Todos os dias vemos o desperdício do milagre da vida. As pessoas não cultivam a alegria que o amor traz, não amam, se escondem, se apegam às viagens do ego.
Conservar a coisa que ama! Preservá-la! Esforçar-se para fazê-la feliz. O amor é ação, é cuidado, e por ele cuidamos dos nossos sentimentos, preservamos o que nos é estimado.
O amor é a potência de agir do corpo, o que nos torna dispostos, nos impulsiona a transformar o que somos em algo melhor, nos mostra nossa capacidade de realizar mais coisas.
A definição de amor de Espinoza não admite o egoísmo e o apego físico. Não necessita de presença física para que exista, assim como nós amamos pessoas que já morreram ou moram distantes.
Pela lógica de Espinoza, mesmo que a pessoa decida que estará mais feliz longe de você ou até com outra pessoa, você amando-a deseja conservá-la, respeitá-la, deseja que ela seja o melhor que pode ser, sem culpá-la ou se entristecer.
São Thomas de Aquino simplificou com a frase: "O amor é o desejo da eternidade do ser amado"
Quanto a mim, acredito que o amor é o desejo de contemplar a felicidade do ser amado.
Sinta a coragem de viver esse milagre. Não espere por más notícias para decidir dar amor a quem não pode mais recebê-lo, não espere acabar a admiração e o respeito para ser reciproco. Cada minuto deste impiedoso tempo é sagrado.
Finalizo com a mesma pergunta que a iniciei: Se fosse o Amor, única e exclusiva fonte de alimento da sua alma, você morreria de fome?
A imagem utilizada é uma obra de Rodin, chama-se O beijo.
Gratidão!
Aldren
