sábado, 11 de julho de 2020

Um ensaio sobre o amor


    Se fosse o Amor a única fonte de alimento da sua alma você morreria de fome? Sei que a ideia de não ser uma pessoa amada assusta mais que a morte, e você diria algo como: Claro que não, eu amo e sou amada... ou coisa parecida.
  O amor está nos filmes, nas músicas, na dança, nas poesias, em tudo ao nosso redor, talvez por isto não costumamos identificá-lo.
  Falta-nos tempo e coragem para desenvolver um sentimento como o que vemos nos poetas. Ficamos emocionados com um filme, mas perdemo-nos quando alguém diz que nos ama. Não estamos preparados para esse milagre, embora tenhamos em nós a essência do amor.
  Depois de procurar explicações na filosofia e na teologia, voltei-me aos pensadores, gurus, santos e pervertidos.

    Minha incessante busca levou-me à obra prima sobre o assunto: “O Banquete”, de Platão. O amor não combina muito com a filosofia, mas Platão é um dos poucos pensadores que o usou como objeto de reflexão. Embora esse longo diálogo fale do amor grego, sobretudo de mitos e fábulas, resumo:

    Eros, uma divindade, é definido pelos participantes do simpósio:

    Fedro afirma que o Amor é um deus e quem ama torna-se divino como Eros. Assim, como ser divino, sacrifica-se pelo objeto amado. Fedro cita três exemplos de sacrifícios: Alceste, Orfeu e Aquiles. Não vou discorrer sobre para não alongar demais o texto.

  Pausânias diz que existem dois Eros, um seria bom e o outro não muito bom. Um se apaixona pelo corpo e o outro pela alma. Desta forma, um amor é belo porque sobrevive ao tempo e à morte e o outro é feio porque morre quando o corpo envelhece, e o amado é deixado em desespero.

    E ainda reflete sobre a ‘Servidão Voluntária’, declarando-a uma virtude, se o propósito de servir tornar alguém melhor em sabedoria ou qualquer outra espécie de virtude, e associa o que é belo à convergência do mesmo objetivo entre amado e amante.

   Erixímaco afirma que Eros não é apenas um sentimento de uma pessoa por outra, mas uma força cósmica que move o universo. Existe Eros em tudo. Os contrários são harmonizados por Eros, Tudo é atravessado por uma força erótica existente na natureza.

     Aristofanes discursou sobre a origem da forma humana como sendo a junção dos dois gêneros (homem e mulher - andrógenos), os seres teriam 4 braços, 4 pernas e duas cabeças e forma esférica e conta que eles se sentiram tão poderosos que quiseram subir no Olimpo e roubar o trono dos deuses.

  Zeus para castigá-los, lançou seus raios partindo-os ao meio e dispersou-os pela terra, condenando-os a passar a vida buscando sua metade. Eros então é uma carência em busca de união e plenitude.

   Agatão descreve as qualidades de Eros, como caçador, técnico, viajante, capaz de penetrar de maneira imperceptível as almas, tornando-as tão rapidamente apaixonadas.

  Sócrates relata uma conversa que teve com uma mulher experiente nas coisas do amor: Diotina da Mantinéia. Ela lhe conta que Eros foi gerado durante uma festa, no dia do nascimento de Afrodite, e que por este motivo ama o que é belo, mas carrega traços indissolúveis da mãe, Pênia, a Deusa da pobreza. De forma que ele, Eros, se sente infeliz, sempre mendigando e carente.

    Porém, astuto como o pai Póros, Eros sempre procura a beleza e se sente pleno quando a encontra. Diotina diz que Eros é um Daimo, um intermediador entre os deuses e os humanos.

    Eros é o amor pela sabedoria e pela beleza e nos impulsiona pela busca da beleza, das virtudes, das leis, da sabedoria, a busca pelo belo e pelo bom, movidos pelo desejo, que consequentemente, gera o desejo pela imortalidade.

  Esse diálogo se encerra com a declaração de amor de Alcebíades para Sócrates, dizendo que ele é feio por fora, mas bonito por dentro.

    Perdoe-me a narrativa sáfia.

 Essas são definições de amores que já tivemos, ou teremos. Sobretudo são sentimentos conhecidos, como se já tivéssemos, ao longo da existência, passado por todos eles, mas sem compreendê-los a tempo. Em algum momento da vida, o amor foi sacrifício, foi bom, em outras foi feio. Talvez servidão, às vezes força, carência, busca, paixão ou desejo. Muitas são as vezes em que julgamos sentir o amor, até que ele acabe e outro mais forte e diferente surja.

  E muitas são as vezes em que perdemos a oportunidade de amar por medo de não ser correspondido.

  O conceito de amor nas duas pessoas é diferente, isto gera decepção. Entenda o amor,compreenda o que sente. Compreenda o amor que recebe. Se alguém não demonstra sentir da mesma forma que você, não quer dizer que não sinta com tudo o que tem. O amor não tem medida, tão pouco razão.

    Aceite que o outro é alguém independente de suas impressões e sentimentos, só assim o amor começa. Desprenda-se da sua imaginação do outro, mergulhe nos mistérios que ele traz, respeite a integridade absoluta do outro. O amor é a verdade - se consciente.

  Por um minuto imagine a possibilidade de você poder ser você, e receber amor por isto. Imagine um olhar do outro sem ilusões, sem julgamento, e que você não precisa ser bom ou boa em nada; a sua existência basta! Isso seria tão leve, tão sublime... Alguém já ouviu você falar olhando nos seus olhos e esperou você terminar, sem interromper? Alguém já lhe dirigiu olhar com ternura?

  A emoção não tem consciência, por isso não pode ser autogerida, ao contrário do pensamento. O amor então pode ser um sentimento, mas ele cria sua energia por meio do
comportamento. Apenas quando há consciência é possível torná-lo uma ação, e embora seja um fenômeno invisível e de força natural, ele precisa ser cultivado para manter-se pulsante.

    Pouquíssimas pessoas conseguiram falar sobre o amor sem associá-lo ao desejo. Se você
leu com atenção, percebeu que Eros nada mais é do que o desejo. Pausânias fala de um Eros feio como quem se apega apenas ao corpo; Erixímaco admite a força erótica na natureza; Aristofanes fala sobre o desejo dos seres humanos pelo poder.

   São Thomas de Aquino afirma que o bem vem antes do mal, o amor precede o desejo e este o deleite.

   O amor desejando ardentemente possuir o outro é desejo, porém quando já o possui e goza dele, é alegria. O amor é a primeira das paixões do concupiscível, pois quando o ser amado é possuído, ele se torna fonte de prazer, porém quando ainda está distante o sentimento que existe é o desejo. Sente-se mais o amor quando é produzido pela carência.

   O amor estende o desejo e o desejo estende o amor. Santo Agostinho esboça a união de ambos. Há apenas um amor, porque o desejo é um. Mas esse amor pode assumir duas formas incompatíveis de acordo com o objeto ao qual se dirige. Agostinho escreveu: "Quem ama quer formar um com quem ama”. Em consequência "o ser humano torna-se o que ele ama".

  Freud (1912), discorre sobre o conflito de amar e desejar sexualmente a mesma pessoa, afirmando que a harmonia de uma relação amorosa se sustenta entre o equilíbrio das duas forças eróticas e afetivas. Poucas são as pessoas capazes de combinar convenientemente tais correntes, ou seja, amar sem que isso incorra na diminuição do desejo sexual.

    Isso explica comportamentos comuns entre os homens, ao procurar mulheres apenas para satisfazer-lhes os desejos, tornando-se agressivos quando por elas começam a sentir amor, implicando em dor e sofrimento muitas vezes inexplicáveis e dos quais ambos, não conseguem se libertar.

    Freud afirma que o comportamento humano é guiado por dois princípios que são o desejo sexual e o medo da morte.

  Não importa qual é o desejo, o sexo é a motivação para qualquer atividade. Tanto um milionário quanto um sonhador, querem a mesma coisa que uma amante ardente: provar seu valor para conquistar, para possuir. Essa afirmação não se choca ao ponto de que a fama de perversão o precede. Contudo, muito antes, Schopenhauer (1819), de forma muito generosa, fundamenta o amor como um instinto encaminhado para a reprodução da espécie. É curiosa a exposição, complexa, porém embasada pelos comportamentos mais óbvios do homem. A natureza o engana por meio de uma ilusão qualquer, mostrando felicidade onde só existe o bem da espécie, e se converte em escravo desta, acreditando obedecer somente aos seus desejos. Esta ilusão não é mais do que o instinto, representado pelo sentido e os interesses da espécie ou, trocando em miúdos, todo e qualquer envolvimento sexual é causado pelo instinto de reprodução da espécie. É difícil acusar de egoísmo um comportamento natural, porém a intenção não é de justificar, mas de entender. O impulso incessante do masculino pela copulação é instinto, tanto que é comum alguns homens sentirem certa repulsa após o gozo, transformando em constrangedor um ato que minutos antes fantasiava o amor. Lacan explicita que o gozo fálico impede o homem gozar do corpo da mulher, pois do que ele goza é do gozo do órgão, ou seja, "o gozo enquanto sexual, é fálico, ele não se relaciona ao Outro como tal.

   Talvez, após essas considerações, você pense que o amor nunca será real para o homem, tanto quanto é para a mulher. É desestimulante, quase injusto; narcísico e egoísta.

    Lacan define o amor como o ato de dar o que não se tem a alguém que não o quer. Teria sentido se considerássemos que o amor é a fantasia, como citei acima. Amar é querer ser amado, afirmativa que denuncia a essência narcísica do amor, salientada por Freud.

    Se o objeto de desejo é o amor, você nega saciá-lo privando o outro de sentir-se amado por medo de que o desejo acabe, dissipando as oportunidades de amar, você apenas manifesta um perverso egoísmo. O medo não lhe concede o direito de causar angústia no outro, mesmo quando o medo se confunde com proteção.

    Freud faz a distinção entre narcisismo e egoísmo quando afirma que o narcisismo é o complemento libidinal do egoísmo; ele é a função do ego no sentido de autopreservação. O
egoísmo estaria, no caso, ligado ao instinto de sobrevivência, protegendo o indivíduo.

   Não haveria sentido falar de amor e não citar o desejo, e consequentemente o egoísmo. Mas a intenção era justamente fazê-lo refletir sobre o amor romântico, por isso não citei Ágape, ou a carta de Paulo aos Coríntios, que considero o texto mais honesto sobre o amor Cristão.

   Todos os dias, temos a oportunidade de manifestá-lo. O amor é ético, é digno. Você pode encontrá-lo nos dez mandamentos: em todos eles existe a presença do amor. Faça dele uma ação!

 Todos esses pensadores citados, trabalharam duramente na análise crítica deste sentimento, e a conclusão de todos apresenta semelhança em alguns aspectos. Todo sentimento de amor carrega traços de desejo e egoísmo.

  Não existiu no mundo mais bela definição de amor, do que a apresentada por Espinoza (1677): "O amor nada mais é do que a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior"

    Tal definição apesar de simples revela o sentido mais abundante do amor. A existência do ser amado lhe causa felicidade. E complementa: "Vemos além disso que aquele que ama esforça-se necessariamente por ter presente e conservar a coisa que ama"

    Aspecto negligenciado nos dias de hoje. Não existe sequer reciprocidade no amor.
   Todos os dias vemos o desperdício do milagre da vida. As pessoas não cultivam a alegria que o amor traz, não amam, se escondem, se apegam às viagens do ego.

    Conservar a coisa que ama! Preservá-la! Esforçar-se para fazê-la feliz. O amor é ação, é cuidado, e por ele cuidamos dos nossos sentimentos, preservamos o que nos é estimado.

  O amor é a potência de agir do corpo, o que nos torna dispostos, nos impulsiona a transformar o que somos em algo melhor, nos mostra nossa capacidade de realizar mais coisas.
    A definição de amor de Espinoza não admite o egoísmo e o apego físico. Não necessita de presença física para que exista, assim como nós amamos pessoas que já morreram ou moram distantes.

   Pela lógica de Espinoza, mesmo que a pessoa decida que estará mais feliz longe de você ou até com outra pessoa, você amando-a deseja conservá-la, respeitá-la, deseja que ela seja o melhor que pode ser, sem culpá-la ou se entristecer.

    São Thomas de Aquino simplificou com a frase: "O amor é o desejo da eternidade do ser amado"

    Quanto a mim, acredito que o amor é o desejo de contemplar a felicidade do ser amado.

    Sinta a coragem de viver esse milagre. Não espere por más notícias para decidir dar amor a quem não pode mais recebê-lo, não espere acabar a admiração e o respeito para ser reciproco. Cada minuto deste impiedoso tempo é sagrado.

    Finalizo com a mesma pergunta que a iniciei: Se fosse o Amor, única e exclusiva fonte de alimento da sua alma, você morreria de fome?


    A imagem utilizada é uma obra de Rodin, chama-se O beijo.

Gratidão!

Aldren

domingo, 17 de julho de 2016

Parábola do Presente

Ela era uma menina especial, e estava apaixonada.
Ouvia tudo que seu coração dizia. Em todos os momentos, de paz e de conflitos.
Uma vez, cansada de apenas ouvir, começou a guardar tudo que sentia numa caixa. Todas as lembranças, todos os momentos ao lado do seu amado, cada palavra, cada gesto de amor e carinho foram colocados ali.
Sua caixa tinha sentimentos puros. Quando a abria, uma luz enchia o ambiente. Sempre estava cheia, e nunca transbordava. Cada dia ao lado do seu amado era repleto de sonhos.
Então decidiu que sua caixa seria bonita por fora também.
Toda vontade de ser feliz foi colocada nas suas laterais. Tinha um colorido lindo, então se dedicou a fazer a tampa da caixa e nela colocou a esperança de que tudo melhora no próximo amanhecer.
Ela ficou completa e a menina carregava a caixa onde quer que fosse.
Até que um dia decidiu dá-la de presente. Pensava que o amor lhe dava coisas maravilhosas e compartilhando, seria retribuído e assim nunca acabaria. Ela queria, do fundo do seu coração, que seu amado soubesse o quanto se sentia feliz, e como era grande seu amor. Lembrava dos seus beijos, do calor do seu corpo, das palavras as vezes tão delicadas, e a ansiedade para entregar o presente aumentava.
Quando a abriu para seu amado, com o olhar sereno de quem estava dando o melhor que existia no mundo, foi surpreendida por sua reação.

_ Menina, isso não pode existir nesse mundo, eu não posso aceitar esse presente.

Então, percebendo a tristeza que escureceu seus olhos, lhe beijou e disse:

_ Guarde isso, é tão lindo como você, por dentro e por fora. Mas não sou merecedor.

Mas a menina não desistiu. Todos os dias carregava aquela caixa, e na tentativa frustrante de entrega-la, passava horas contemplando sua beleza, sua plenitude. O que a fez questionar o porquê de não ser aceita como presente. Ora, se era uma coisa boa, porque não era aceita? Nela estava tudo que tinha de melhor.
O tempo foi passando, e a menina percebeu que a cada tentativa, sua caixa ficava mais pesada. Assim, decidiu abri-la e ver o que estava errado. Para sua surpresa, a superfície estava repleta de tristezas.
Ainda assim, a carregava para todos os lados. Seu peso aumentava e o desconforto começou a incomodá-la. Usava as duas mãos para aguentar o peso, e logo não conseguia fazer mais nada. Seu amado dizia:

_ Não precisamos dela. Somos perfeitos com o que já temos.

Ao que respondia:

_ Mas aqui está uma parte de mim. A única parte que você não pode ver com seus olhos.

Em vão, sentia vontade de desistir, de jogar a caixa fora e toda vez que isso acontecia, olhava a tampa da caixa, a esperança estava ali, então tentava novamente.
Certo dia, sentou-se numa guia de calçada para descansar. Suas mãos estavam feridas. Sentiu o calor de lágrimas descendo-lhe ao rosto. Percebeu que ao seu lado sentou-se um senhor, que lhe disse:

_ Não consigo imaginar o que pode fazer uma menina tão linda chorar. Me diga, o que aconteceu?

Então a menina lhe abriu a caixa, e o senhor ao olha-la por dentro, perguntou:

_ É uma caixa cheia de tristeza e ressentimentos. Por que a carrega?

Enxugando as lágrimas, respondeu:

_ Ela não foi sempre assim. Era cheia de amor e carinho. Tinha momentos lindos por dentro, sonhos que me davam ânimo, sorrisos que faziam minha alma crescer. A luz dela era intensa, e nela estava tudo que eu tinha de melhor. Eu quis dá-la ao meu amado, mas ele não a aceitou. Tento entrega-la todos os dias, mas ele está ocupado ou apenas não quer recebe-la. Mas agora, não aguento mais carrega-la e não sei o que fazer com ela.

O senhor a observava com atenção e nos seus olhos havia ternura.

_ Minha querida, compreendo que tenha feito essa caixa para dá-la de presente, mas não vejo a sua caixa. Onde está?

A menina sem entender, respondeu:

_ Eu não tenho uma. Deveria ter?

Com um sorriso no rosto, o velho respondeu:

_ O único presente que você deve dar a você mesma estava aí, essa caixa não pode pertencer a outra pessoa, senão a você. Encha sua caixa novamente, coloque todos os seus sonhos, todo amor que houver dentro de você, todo o carinho, esperança e fé, e abra-a todos os dias, contemple, e às pessoas que estiverem na sua vida, deixe que vejam lá dentro, deixe que vejam a luz que sai dela e o calor que ela têm, mas nunca deixe que a levem de você! Entenda menina, que se você a possuir, ninguém poderá colocar nela o que você não permitir e carregando-a com a leveza dos seus sentimentos, poderá abri-la para todos e aqueles que sentirem a grandiosidade do amor, permanecerão ao seu lado, para abri-la com você.

A caixa em seu colo brilhou como a muito não fazia. A tampa parecia mais viva a cada momento, a paz voltou para o seu coração. 


Aldren Prado

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher!


Eu sou feita de versos sem rima
De palavras simples
De vento sul
De labaredas
Sou mutável
Sou mutante
Quase inconstante
Me perco no som das letras
Me encontro na junção das palavras
Sou mansa
Sou fera
Tenho desejos contidos
Sonhos impossíveis
Sou avessa
Sou matreira
Sou deleite
Sou semente
Sou orvalho
Reticências...
____________
Lou Witt

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Da Sacada do Quarto

Sei que estou perdida em conflitos, que está difícil esclarecer certas situações pela lógica. Eu, que sempre preciso de explicações e respostas, não tenho nada agora e sinto muito medo.
Tenho em mim toda força do mundo e preciso desesperadamente de um reencontro.
Vou até a sacada, venta bastante essa hora, mas é perfeito.
Fecho os olhos e tento me conectar com o mundo, com meu EU. Começo da forma mais fácil, porque estou instável e é necessário me concentrar.
Ouço todos os ruídos, começo com os mais próximos, vizinhos conversando, mas não me atento aos assuntos, apenas às vozes, os cachorros, as crianças, portão abrindo e fechando, interfones, carros e quando acostumo, busco sons mais distantes, pássaros, folhas balançando, a natureza se manifestando. Quero ouvir o ruído do mundo, a vibração da vida, mas preciso de mais concentração, então passo para o seguinte sentido, e me delicio no aroma do ar de inverno com sol, o vento traz cheiros e lembranças, volto ao passado e começo a cantar minha música de infância, do meu anjo, e minha voz parece ter saído de mim, escuto-a como se fosse outra, na capela que me acalma e me leva pra um lugar seguro. Volto a sentir o cheiro do ar úmido, da terra, e sei que preciso usar a memória da alma; Que conhece todos os lugares onde já estive, porque não quero abrir os olhos agora. Quero enxergar coisas que ficaram registradas, e ver além do que meu corpo físico pode mostrar. Me concentro no som das folhas e no mesmo instante vejo cada detalhe, a textura, as fibras, as variedades de cores, o balançar, o caule, o tronco, raízes, tudo em harmonia, tudo tão perfeito. Me dou conta que sou parte daquilo, que sou grande como a árvore que carrega a folha, e alta como ela e também balanço com o vento. Ouço o canto, observo o ninho, vejo cada graveto colocado, a sabedoria divina em todos os detalhes que passam por mim, plumas que parecem macias, olhos ligeiros e cuidadosos. Sinto que preciso ir além, quero voar.
Não estou levitando, eu sou um pássaro e olho tudo de cima, vejo uma imensidão de tons de verde nas árvores, vejo um rio correndo, passando por pedras enormes, contornando-as, partindo em algum sentido. O vento é forte, mas não me incomoda, porque o ar é leve e tem o aroma da minha infância. Faço um ruído alto, e de novo. É um grito de liberdade.
Estou em busca de equilíbrio, tenho que respeitar as leis e a natureza, volto para folha, para árvore e faço uma prece, agradeço pela permissão que não pedi, mas me foi concedida. Quero ir mais fundo no mergulho até minha alma. Meu anjo da guarda está ao meu lado, não devo temer. Imagens começam a passar diante de mim, as estações, as folhas caindo, renascendo, raios de sol e tempestades, as fases da lua, o pôr do sol, e mais chuva, e sementes caindo e brotando, mais vida nascendo, o cheiro da terra, a solidão da noite, os insetos, a caça, e de repente sou testemunha desse milagre de vida. Agradeço a Deus pela perfeição, e em segundos não estou mais cabendo em mim, minha alma se expandiu, tenho em mim todos os sonhos do mundo, todo sorriso, toda lágrima, toda dor e todo amor. Sou envolvida por uma luz mágica e sinto apenas gratidão. Não quero que acabe, mas choro compulsivamente, choro porque me encontrei, porque não estou mais perdida, encontrei minha alma no mundo e sou grata.
Preciso voltar, e embora seja difícil sair, começo a ouvir os ruídos iniciais, carros, vozes, crianças, cachorros, logo o vento já está tocando meu rosto, secando minhas lágrimas e permaneço assim, com os olhos fechados por mais algum tempo, agradecendo a Deus pela criação, pela força da Vida, pelo entusiasmo, pela misericórdia, pela consciência. Estou leve, feliz e posso dar agora o que tenho de melhor.

Aldren

Ago/2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Nossa Música



Eu não sei
Se preciso de você agora
Nem se posso lhe ajudar
Vou sair
Tá fazendo muito frio lá fora
Mas to querendo me isolar
Sinto falta de estar contente
Eu quero a vida que eu vim buscar
Melhor seria se você fosse alguém
Que pudesse me levar
Sei que eu te quero bem
Mas eu preciso do meu lugar
No seu mundo
Já passei 
por coisas que você nem imagina
Que eu não conto pra ninguém
Mas cansei
De viver essa vida maluca
Eu quero um porto pra ancorar
Eu sei que sempre estou ausente
Que é muito tempo pra me esperar
Melhor seria se você fosse alguém
Que viesse me buscar
Sei que eu te quero bem
Mas eu preciso do meu lugar
Eu preciso do meu lugar
No seu mundo
(Nila Branco)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Corredores

Eu andei 
Sorri 
Chorei tanto 
Não me arrependi 
Ganhei e perdi 
Fiz como pude 
Lutei contra o amor 
Quanto mais vencia, me achava um perdedor 
Mais tarde me enganei e vi com outros olhos 
Quando às vezes não amei a mim 
Não por falta de amor 
Mas amor demais 
Me levando pra alguém 
Quem visitou os corredores da minha alma 
Soube dos enganos, secretos planos e até os traumas 
Eu sempre fui muito só 

Eu andei 
Sorri 
Chorei tanto 
Fui quase feliz 
Fiz tudo que quis 
Fiz como pude 
Desprezei meu ego 
Dando esmolas a ele 
Como se fosse um cego 
Mais tarde me enfeitei, até pintei os olhos 
Quando às vezes não amei a mim 
Não por falta de amor 
Mas amor demais 
Me escapando pra alguém 
Quem visitou os corredores da minha alma 
Soube dos meus erros 
E dos nós que fiz bem na linha da vida 
Eu sempre fui muito só

terça-feira, 19 de maio de 2015

Let It Be Me


There may come a time, a time in everyones life
Where nothin seems to go your way
Where nothing seems to turn out right
There may come a time, you just can't seem to find your place
For every door you walk on to, seems like they get slammed in your face
That's when you need someone, someone that you can call.
And when all your faith is gone

Feels like you can't go on
Let it be me
Let it be me
If it's a friend that you need
Let it be me
Let it be me
Feels like your always commin up last
Pockets full of nothin and you got no cash
No matter where you turn you ain't got no place to stand

Reach out for something and they slap your hand
Now I remember all to well
Just how it feels to be all alone
You feel like you'd give anything
For just a little place you can call your own
That's when you need someone, someone that you can call

And when all your faith is gone
Feels like you can't go on
Let it be me
Let it be me
If it's a friend you need
Let it be me
Let it be me