quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Da Sacada do Quarto

Sei que estou perdida em conflitos, que está difícil esclarecer certas situações pela lógica. Eu, que sempre preciso de explicações e respostas, não tenho nada agora e sinto muito medo.
Tenho em mim toda força do mundo e preciso desesperadamente de um reencontro.
Vou até a sacada, venta bastante essa hora, mas é perfeito.
Fecho os olhos e tento me conectar com o mundo, com meu EU. Começo da forma mais fácil, porque estou instável e é necessário me concentrar.
Ouço todos os ruídos, começo com os mais próximos, vizinhos conversando, mas não me atento aos assuntos, apenas às vozes, os cachorros, as crianças, portão abrindo e fechando, interfones, carros e quando acostumo, busco sons mais distantes, pássaros, folhas balançando, a natureza se manifestando. Quero ouvir o ruído do mundo, a vibração da vida, mas preciso de mais concentração, então passo para o seguinte sentido, e me delicio no aroma do ar de inverno com sol, o vento traz cheiros e lembranças, volto ao passado e começo a cantar minha música de infância, do meu anjo, e minha voz parece ter saído de mim, escuto-a como se fosse outra, na capela que me acalma e me leva pra um lugar seguro. Volto a sentir o cheiro do ar úmido, da terra, e sei que preciso usar a memória da alma; Que conhece todos os lugares onde já estive, porque não quero abrir os olhos agora. Quero enxergar coisas que ficaram registradas, e ver além do que meu corpo físico pode mostrar. Me concentro no som das folhas e no mesmo instante vejo cada detalhe, a textura, as fibras, as variedades de cores, o balançar, o caule, o tronco, raízes, tudo em harmonia, tudo tão perfeito. Me dou conta que sou parte daquilo, que sou grande como a árvore que carrega a folha, e alta como ela e também balanço com o vento. Ouço o canto, observo o ninho, vejo cada graveto colocado, a sabedoria divina em todos os detalhes que passam por mim, plumas que parecem macias, olhos ligeiros e cuidadosos. Sinto que preciso ir além, quero voar.
Não estou levitando, eu sou um pássaro e olho tudo de cima, vejo uma imensidão de tons de verde nas árvores, vejo um rio correndo, passando por pedras enormes, contornando-as, partindo em algum sentido. O vento é forte, mas não me incomoda, porque o ar é leve e tem o aroma da minha infância. Faço um ruído alto, e de novo. É um grito de liberdade.
Estou em busca de equilíbrio, tenho que respeitar as leis e a natureza, volto para folha, para árvore e faço uma prece, agradeço pela permissão que não pedi, mas me foi concedida. Quero ir mais fundo no mergulho até minha alma. Meu anjo da guarda está ao meu lado, não devo temer. Imagens começam a passar diante de mim, as estações, as folhas caindo, renascendo, raios de sol e tempestades, as fases da lua, o pôr do sol, e mais chuva, e sementes caindo e brotando, mais vida nascendo, o cheiro da terra, a solidão da noite, os insetos, a caça, e de repente sou testemunha desse milagre de vida. Agradeço a Deus pela perfeição, e em segundos não estou mais cabendo em mim, minha alma se expandiu, tenho em mim todos os sonhos do mundo, todo sorriso, toda lágrima, toda dor e todo amor. Sou envolvida por uma luz mágica e sinto apenas gratidão. Não quero que acabe, mas choro compulsivamente, choro porque me encontrei, porque não estou mais perdida, encontrei minha alma no mundo e sou grata.
Preciso voltar, e embora seja difícil sair, começo a ouvir os ruídos iniciais, carros, vozes, crianças, cachorros, logo o vento já está tocando meu rosto, secando minhas lágrimas e permaneço assim, com os olhos fechados por mais algum tempo, agradecendo a Deus pela criação, pela força da Vida, pelo entusiasmo, pela misericórdia, pela consciência. Estou leve, feliz e posso dar agora o que tenho de melhor.

Aldren

Ago/2015