sábado, 14 de fevereiro de 2015

Por que não assistir 50 tons de cinza?


A pergunta deveria ser: O que esperar do filme 50 tons de cinza?
Há pouco mais de uma semana, tenho visto e lido várias críticas a cerca do lançamento do filme mais esperado pelas mulheres no mundo todo.
Óbvio que li os livros e achei que não seria correto escrever algo sem ao menos ter assistido ao filme, porque tenho a convicção de que podemos e devemos criticar, mas somente o que conhecemos de fato. Desta forma, fui ao cinema, ansiosa, mas tendo a consciência de que (pela classificação indicativa) o filme seria bem fraco.
Fiquei surpreendida de ler textos escritos por psiquiatras, psicólogos e até bispos falando de experiências sexuais, dependência psicológica e tal. Claro, não estudei nada disso, sou leiga, mas posso afirmar, por experiência pessoal, que distúrbios psicológicos são causados desde a infância, e ganham potencial na fase adulta, que é justamente quando estamos enfrentando as verdadeiras dificuldades da vida. Logo, não é coincidência que transferimos a culpa de alguns transtornos para os amores que tivemos ou não, o fato é que nessa fase, tudo acontece ao mesmo tempo.
Começando pelo livro, uma boa história, porém mal escrita, gramaticamente desprezível. Romance, lógico, como toda boa história americana; Jovens (sempre cheios de disposição e sonhos) diferentes que se encontram num mundo onde há coisas em comum. Li os três em uma semana (e acreditem, não saí por aí comprando algemas e afins), depois passei para uma coleção bem maior, porque é só um livro, e como tudo que passa, só fica o que realmente tem importância, o resto é distração.
Bom, vamos ao filme. Romance sim! Quase comédia! Muito fraquinho, sem detalhes, com muitas falhas, se comparado ao livro, não valeria a pena assistir.
Christian Grey é um homem maravilhoso, embora eu ainda ache que Matt Bomer ficaria melhor no papel. Anastásia, uma virgem de 21 anos (impossível?!?). Eu, no lugar dela também não perderia essa oportunidade, afinal, com 21 anos, a vida está apenas começando e porque não descobrir novos mundos?
Mas é um ROMANCE, sim, um romance melódico. Qualquer casal normal no mundo faz “brincadeiras” durante o sexo, se não com algemas (que por sinal não deram sinal de vida no filme), ou cordas, enfim, usando qualquer tipo de acessórios e realizando alguns fetiches, e isso é naturalmente saudável. Acredite, não vai destruir sua família ou acabar com a vida dos seus filhos.
Se você acha que Anastásia era uma submissa, deveria ter visto o filme “History of O” (1975), um drama erótico, dirigido por Just Jaeckin, uma adaptação franco alemã da obra de Pauline Reage de 1954 (Olhem o ano! 1954), onde a protagonista é iniciada numa sociedade bastante peculiar, para provar o amor que sente por René. Nesse filme rola bastante chicotada e a pobre “O” serve á diversos homens, ela faz uma conotação de sua vida com um clássico “Alice no país das Maravilhas”, quando se compara à Alice, seguindo um coelho que está sempre atrasado, quando entra num buraco e saí num mundo desconhecido e louco.
Nada comparado ao livro (depois peça de teatro) “A filosofia na Alcova” de 1795 (Marquês de Sade), onde a jovem Eugénie recebe educação sexual de dois mestres depravados. Qualquer crime ou pecado é justificado pelo prazer sexual, inclusive a DOR. Não há pudor, não há limites. A aluna acaba se mostrando uma dominadora perversa. Nesta obra discute-se religião, política e direito, além de extravagantes orgias. É bem forte.
Não vamos falar de sadomasoquismo aqui ok? Isso não existe no filme, o quarto vermelho da dor ou quarto de jogos mal é usado, só impressiona pelos acessórios (não utilizados), e tapinha na bunda, convenhamos... não é nada sádico ou masoquista.
Claro que nenhum tipo de excesso é saudável, e desta forma, não podemos dizer que Christian Grey é um maníaco por sexo. Se analisarmos friamente, ele é desprovido de qualquer outra forma de contato, logo, se uma pessoa só pode dar o que ela tem o que mais ele daria a alguém?
Vamos lá, falar de excessos.... Em 2014, outro drama erótico “Ninfomaníaca”, dirigido pelo dinamarquês Von Trier, contava a estória da deprimente Joe, que desde muito nova já mostrava certo declive pelos anseios sexuais. Ela era uma pessoa vazia, sem propósitos e ambições (essa é a minha percepção). Ela se compara a diversas coisas durante o filme, mas achei interessante quando o faz com um peixe, dizendo que os maiores nadam longe da correnteza, a fim de poupar energia. E realmente, algumas pessoas gastam energias desnecessariamente, e quando chegam perto de um propósito, já não têm mais forças para alcançá-los.
Enfim, não existe absolutamente nenhum motivo para temer “50 tons”. Não existe dominação, submissão, nem nada que possa ser considerado ofensivo ou dramático neste filme.
É sério! Vejo casos de ciúmes e agressões (entre pessoas de convívio social) muito mais graves e ostensivos.
Anastásia não é uma jovem com distúrbios e tão pouco insegura. Ela é bem corajosa, haja vista a forma como lida com o desconhecido. Se analisar “9 semanas e ½ de amor” (1986) filme estadunidense baseado no livro de Elizabeth McNeill, poderá diferenciar uma jovem vítima de dependência psicológica e verá que Ana não tem nada disso, nem de longe.
Já ia me esquecendo! Não há cenas de sexo explícito! A Ana mostra os peitinhos (rs) diversas vezes, e também podemos ver o bumbum deles diversas vezes, mas nada de penetração, apenas caras e bocas. Irrita muito ela ficar gemendo por qualquer coisa, mas cada um é cada um, não vou julgar. O Christian Grey....ah o Christian Grey...temos que nos contentar com os pelinhos pubianos, que aparecem por cerca de 1 segundo e meio... Pois é, se você ficou decepcionado (a) pode assistir “9 canções” (2005), com cenas de sexo oral e até ejaculação, “Shortbus” (2006), “Desejo e perigo” (2007) suspense erótico, todos esses com cenas de verdade, sem cortes, sem montagens. 
Não sejamos hipócritas, não fazemos filhos no laboratório, não é pela boa comida na mesa que conquistamos nossos maridos (sabemos do que eles gostam). Quer julgar mundos e fundos, é um direito, mas seja portador do conhecimento, pois sem ele não há transformação. Não tenha medo de assistir 50 tons! É só um filme, a propósito, nunca vi uma criança enfrentando um ladrão depois de assistir “Esqueceram de mim” (1990), nunca vi renas de papai Noel e nem fábricas com coelhinhos da páscoa, tão pouco comprei uma varinha mágica (sim, porque adoro Harry Potter!). A vida é curta demais e as perspectivas precisam ser ampliadas, para que não pareça que estamos desperdiçando aquilo que sempre buscamos: Os Ideais!

Aldren Prado