A pergunta deveria ser: O que
esperar do filme 50 tons de cinza?
Há pouco mais de uma semana,
tenho visto e lido várias críticas a cerca do lançamento do filme mais esperado
pelas mulheres no mundo todo.
Óbvio que li os livros e achei
que não seria correto escrever algo sem ao menos ter assistido ao filme, porque
tenho a convicção de que podemos e devemos criticar, mas somente o que
conhecemos de fato. Desta forma, fui ao cinema, ansiosa, mas tendo a
consciência de que (pela classificação indicativa) o filme seria bem fraco.
Fiquei surpreendida de ler textos
escritos por psiquiatras, psicólogos e até bispos falando de experiências
sexuais, dependência psicológica e tal. Claro, não estudei nada disso, sou
leiga, mas posso afirmar, por experiência pessoal, que distúrbios psicológicos
são causados desde a infância, e ganham potencial na fase adulta, que é
justamente quando estamos enfrentando as verdadeiras dificuldades da vida. Logo,
não é coincidência que transferimos a culpa de alguns transtornos para os
amores que tivemos ou não, o fato é que nessa fase, tudo acontece ao mesmo
tempo.
Começando pelo livro, uma boa
história, porém mal escrita, gramaticamente desprezível. Romance, lógico, como
toda boa história americana; Jovens (sempre cheios de disposição e sonhos)
diferentes que se encontram num mundo onde há coisas em comum. Li os três em
uma semana (e acreditem, não saí por aí comprando algemas e afins), depois
passei para uma coleção bem maior, porque é só um livro, e como tudo que passa,
só fica o que realmente tem importância, o resto é distração.
Bom, vamos ao filme. Romance sim!
Quase comédia! Muito fraquinho, sem detalhes, com muitas falhas, se comparado
ao livro, não valeria a pena assistir.
Christian Grey é um homem maravilhoso,
embora eu ainda ache que Matt Bomer ficaria melhor no papel. Anastásia, uma
virgem de 21 anos (impossível?!?). Eu, no lugar dela também não perderia essa
oportunidade, afinal, com 21 anos, a vida está apenas começando e porque não
descobrir novos mundos?
Mas é um ROMANCE, sim, um romance
melódico. Qualquer casal normal no mundo faz “brincadeiras” durante o sexo, se
não com algemas (que por sinal não deram sinal de vida no filme), ou cordas,
enfim, usando qualquer tipo de acessórios e realizando alguns fetiches, e isso
é naturalmente saudável. Acredite, não vai destruir sua família ou acabar com a
vida dos seus filhos.
Se você acha que Anastásia era
uma submissa, deveria ter visto o filme “History of O” (1975), um drama
erótico, dirigido por Just Jaeckin, uma adaptação franco alemã da obra de
Pauline Reage de 1954 (Olhem o ano! 1954), onde a protagonista é iniciada numa
sociedade bastante peculiar, para provar o amor que sente por René. Nesse filme
rola bastante chicotada e a pobre “O” serve á diversos homens, ela faz uma
conotação de sua vida com um clássico “Alice no país das Maravilhas”, quando se
compara à Alice, seguindo um coelho que está sempre atrasado, quando entra num
buraco e saí num mundo desconhecido e louco.
Nada comparado ao livro (depois
peça de teatro) “A filosofia na Alcova” de 1795 (Marquês de Sade), onde a jovem
Eugénie recebe educação sexual de dois mestres depravados. Qualquer crime ou
pecado é justificado pelo prazer sexual, inclusive a DOR. Não há pudor, não há
limites. A aluna acaba se mostrando uma dominadora perversa. Nesta obra
discute-se religião, política e direito, além de extravagantes orgias. É bem
forte.
Não vamos falar de sadomasoquismo
aqui ok? Isso não existe no filme, o quarto vermelho da dor ou quarto de jogos
mal é usado, só impressiona pelos acessórios (não utilizados), e tapinha na
bunda, convenhamos... não é nada sádico ou masoquista.
Claro que nenhum tipo de excesso
é saudável, e desta forma, não podemos dizer que Christian Grey é um maníaco
por sexo. Se analisarmos friamente, ele é desprovido de qualquer outra forma de
contato, logo, se uma pessoa só pode dar o que ela tem o que mais ele daria a
alguém?
Vamos lá, falar de excessos....
Em 2014, outro drama erótico “Ninfomaníaca”, dirigido pelo dinamarquês Von
Trier, contava a estória da deprimente Joe, que desde muito nova já mostrava
certo declive pelos anseios sexuais. Ela era uma pessoa vazia, sem propósitos e
ambições (essa é a minha percepção). Ela se compara a diversas coisas durante o
filme, mas achei interessante quando o faz com um peixe, dizendo que os maiores
nadam longe da correnteza, a fim de poupar energia. E realmente, algumas
pessoas gastam energias desnecessariamente, e quando chegam perto de um
propósito, já não têm mais forças para alcançá-los.
Enfim, não existe absolutamente
nenhum motivo para temer “50 tons”. Não existe dominação, submissão, nem nada
que possa ser considerado ofensivo ou dramático neste filme.
É sério! Vejo casos de ciúmes e
agressões (entre pessoas de convívio social) muito mais graves e ostensivos.
Anastásia não é uma jovem com
distúrbios e tão pouco insegura. Ela é bem corajosa, haja vista a forma como
lida com o desconhecido. Se analisar “9 semanas e ½ de amor” (1986) filme
estadunidense baseado no livro de Elizabeth McNeill, poderá diferenciar uma
jovem vítima de dependência psicológica e verá que Ana não tem nada disso, nem
de longe.
Já ia me esquecendo! Não há cenas
de sexo explícito! A Ana mostra os peitinhos (rs) diversas vezes, e também
podemos ver o bumbum deles diversas vezes, mas nada de penetração, apenas caras
e bocas. Irrita muito ela ficar gemendo por qualquer coisa, mas cada um é cada
um, não vou julgar. O Christian Grey....ah o Christian Grey...temos que nos
contentar com os pelinhos pubianos, que aparecem por cerca de 1 segundo e
meio... Pois é, se você ficou decepcionado (a) pode assistir “9 canções”
(2005), com cenas de sexo oral e até ejaculação, “Shortbus” (2006), “Desejo e
perigo” (2007) suspense erótico, todos esses com cenas de verdade, sem cortes,
sem montagens.
Não sejamos hipócritas, não
fazemos filhos no laboratório, não é pela boa comida na mesa que conquistamos
nossos maridos (sabemos do que eles gostam). Quer julgar mundos e fundos, é um
direito, mas seja portador do conhecimento, pois sem ele não há transformação. Não
tenha medo de assistir 50 tons! É só um filme, a propósito, nunca vi uma
criança enfrentando um ladrão depois de assistir “Esqueceram de mim” (1990), nunca vi
renas de papai Noel e nem fábricas com coelhinhos da páscoa, tão pouco comprei uma varinha mágica (sim, porque adoro Harry Potter!). A vida é curta
demais e as perspectivas precisam ser ampliadas, para que não pareça que
estamos desperdiçando aquilo que sempre buscamos: Os Ideais!
Aldren Prado
