Sei que estou perdida em
conflitos, que está difícil esclarecer certas situações pela lógica. Eu, que
sempre preciso de explicações e respostas, não tenho nada agora e sinto muito
medo.
Tenho em mim toda força do mundo
e preciso desesperadamente de um reencontro.
Vou até a sacada, venta bastante
essa hora, mas é perfeito.
Fecho os olhos e tento me
conectar com o mundo, com meu EU. Começo da forma mais fácil, porque estou
instável e é necessário me concentrar.
Ouço todos os ruídos, começo com
os mais próximos, vizinhos conversando, mas não me atento aos assuntos, apenas
às vozes, os cachorros, as crianças, portão abrindo e fechando, interfones,
carros e quando acostumo, busco sons mais distantes, pássaros, folhas
balançando, a natureza se manifestando. Quero ouvir o ruído do mundo, a
vibração da vida, mas preciso de mais concentração, então passo para o seguinte
sentido, e me delicio no aroma do ar de inverno com sol, o vento traz cheiros e
lembranças, volto ao passado e começo a cantar minha música de infância, do meu
anjo, e minha voz parece ter saído de mim, escuto-a como se fosse outra, na
capela que me acalma e me leva pra um lugar seguro. Volto a sentir o cheiro do
ar úmido, da terra, e sei que preciso usar a memória da alma; Que conhece todos
os lugares onde já estive, porque não quero abrir os olhos agora. Quero
enxergar coisas que ficaram registradas, e ver além do que meu corpo físico
pode mostrar. Me concentro no som das folhas e no mesmo instante vejo cada
detalhe, a textura, as fibras, as variedades de cores, o balançar, o caule, o
tronco, raízes, tudo em harmonia, tudo tão perfeito. Me dou conta que sou parte
daquilo, que sou grande como a árvore que carrega a folha, e alta como ela e
também balanço com o vento. Ouço o canto, observo o ninho, vejo cada graveto
colocado, a sabedoria divina em todos os detalhes que passam por mim, plumas
que parecem macias, olhos ligeiros e cuidadosos. Sinto que preciso ir além,
quero voar.
Não estou levitando, eu sou um
pássaro e olho tudo de cima, vejo uma imensidão de tons de verde nas árvores,
vejo um rio correndo, passando por pedras enormes, contornando-as, partindo em
algum sentido. O vento é forte, mas não me incomoda, porque o ar é leve e tem o
aroma da minha infância. Faço um ruído alto, e de novo. É um grito de liberdade.
Estou em busca de equilíbrio,
tenho que respeitar as leis e a natureza, volto para folha, para árvore e faço
uma prece, agradeço pela permissão que não pedi, mas me foi concedida. Quero ir
mais fundo no mergulho até minha alma. Meu anjo da guarda está ao meu lado, não
devo temer. Imagens começam a passar diante de mim, as estações, as folhas
caindo, renascendo, raios de sol e tempestades, as fases da lua, o pôr do sol,
e mais chuva, e sementes caindo e brotando, mais vida nascendo, o cheiro da
terra, a solidão da noite, os insetos, a caça, e de repente sou testemunha
desse milagre de vida. Agradeço a Deus pela perfeição, e em segundos não estou
mais cabendo em mim, minha alma se expandiu, tenho em mim todos os sonhos do
mundo, todo sorriso, toda lágrima, toda dor e todo amor. Sou envolvida por uma
luz mágica e sinto apenas gratidão. Não quero que acabe, mas choro
compulsivamente, choro porque me encontrei, porque não estou mais perdida,
encontrei minha alma no mundo e sou grata.
Preciso voltar, e embora seja difícil
sair, começo a ouvir os ruídos iniciais, carros, vozes, crianças, cachorros,
logo o vento já está tocando meu rosto, secando minhas lágrimas e permaneço
assim, com os olhos fechados por mais algum tempo, agradecendo a Deus pela
criação, pela força da Vida, pelo entusiasmo, pela misericórdia, pela
consciência. Estou leve, feliz e posso dar agora o que tenho de melhor.
Aldren





